Sabe, eu realmente, esperava que doesse mais, eu esperava
que houvesse aquela dor que vai nos
tirando a alegria a cada dia mas não há... Só existe silêncio envolvendo a sua
memória.
Lembro de você passar pela porta, lembro do último olhar,
mas não há nada além do eco surdo do seu: “se cuida”.
Na mesma noite, esperei ansiosa pela inundação das lágrimas,
pelo sentimento de culpa, mas ele não veio, eu não fui forçada a colocar aquele
disco do Vinícius que tinha a música que dizia: “por toda a minha vida eu vou
te amar”... Não me senti impelida, por
um turbilhão de emoções a amaldiçoar o
dia em que eu te conheci, não tive que sentar no sofá abraçando minhas pernas
tentando me esconder do medo de você não voltar.
Não me coloquei sobre a janela de onde sempre, todo o dia a
gente mirava a lagoa de frente ao nosso lar, não me fiz cativa das emoções que
um dia a gente quis cultivar... Mas lembro.
Lembro de todas as coisas que me trouxeram até você, lembro
de como seu sorriso de lado e sua barba por fazer me deixavam boba, lembro de
como sempre você teve um minuto de silêncio e um abraço apertado pra me trazer
segurança.
Ou o modo com que você sempre tinha um jeito de tirar um
sorriso meu não importa a situação...
Mas aqui, na sala vazia, tenho certeza de que você passou,
se foi, pra longe, pra sempre, e não há de voltar, porque em algum lugar do
tempo prometemos: “ até que nossos corações possam continuar”.
E no meu coração, não há desejo de volta, não há aquela
singular vontade de te procurar esquecer de tudo, esquecer daquela coisa presa
na garganta, do cisco no olho, do vazio permanente que reza pra que você venha me preencger.
Eu não preciso mais, sinceramente, eu não preciso mais de
juras que não se cumprem, eu não preciso mais sempre discar pro seu telefone e
ouvir sua voz que diz que não pode me
atender agora.
Deixei pra trás a carência de sempre precisar de um abraço
seu pra me sentir viva, deixei, sei lá onde a necessidade de fitar seus olhos
de manhã pra sentir que eu tinha uma vida.
Eu desfaço os laços e apago os abraços, pra me sentir só,
porque só me sinto bem, e sem você talvez uma nova primavera possa surgir...
A gente se tornou nó, mas há como desatar nós no peito da
gente, há como se desgarrar daquilo, ou de onde não pertencemos mais, que já
não há lugar dentro dos nossos corações, mas não se esqueça, eu me vou, pra
longe e pra não voltar.
Não me odeie, não é necessária toda essa melodramática que
envolvem os romances, só lembra de Mário Quintana: “Então
o amor, a amizade são isso. Não prendem, não escravizam, não apertam,
não sufocam. Porque quando vira nó, já deixou de ser um laço."
Mas, diante de tudo o que eu
disse, diante desse inverno em mim, que fez um buraco vazio no meu peito que
nem pulsa, nem dói e pouco me traz arrependimento... Você sempre será a
primavera em mim.

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