segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

As Quatro: Inverno

“ O inverno cobre a minha  cabeça, mas uma eterna PRIMAVERA  viverá em meu coração”                                                                                                              Victor Hugo

Sabe, eu realmente, esperava que doesse mais, eu esperava que houvesse  aquela dor que vai nos tirando a alegria a cada dia mas não há... Só existe silêncio envolvendo a sua memória.
Lembro de você passar pela porta, lembro do último olhar, mas não há nada além do eco surdo do seu: “se cuida”.
Na mesma noite, esperei ansiosa pela inundação das lágrimas, pelo sentimento de culpa, mas ele não veio, eu não fui forçada a colocar aquele disco do Vinícius que tinha a música que dizia: “por toda a minha vida eu vou te amar”... Não me senti  impelida, por um turbilhão de  emoções a amaldiçoar o dia em que eu te conheci, não tive que sentar no sofá abraçando minhas pernas tentando me esconder do medo de você não voltar.
Não me coloquei sobre a janela de onde sempre, todo o dia a gente mirava a lagoa de frente ao nosso lar, não me fiz cativa das emoções que um dia a gente quis cultivar... Mas lembro.
Lembro de todas as coisas que me trouxeram até você, lembro de como seu sorriso de lado e sua barba por fazer me deixavam boba, lembro de como sempre você teve um minuto de silêncio e um abraço apertado pra me trazer segurança.
Ou o modo com que você sempre tinha um jeito de tirar um sorriso meu não importa a situação...
Mas aqui, na sala vazia, tenho certeza de que você passou, se foi, pra longe, pra sempre, e não há de voltar, porque em algum lugar do tempo prometemos: “ até que nossos corações possam continuar”.
E no meu coração, não há desejo de volta, não há aquela singular vontade de te procurar esquecer de tudo, esquecer daquela coisa presa na garganta, do cisco no olho, do vazio permanente que reza pra que você  venha me preencger.
Eu não preciso mais, sinceramente, eu não preciso mais de juras que não se cumprem, eu não preciso mais sempre discar pro seu telefone e ouvir sua voz que  diz que não pode me atender agora.
Deixei pra trás a carência de sempre precisar de um abraço seu pra me sentir viva, deixei, sei lá onde a necessidade de fitar seus olhos de manhã pra sentir que eu tinha uma vida.
Eu desfaço os laços e apago os abraços, pra me sentir só, porque só me sinto bem, e sem você talvez uma nova primavera possa surgir...
A gente se tornou nó, mas há como desatar nós no peito da gente, há como se desgarrar daquilo, ou de onde não pertencemos mais, que já não há lugar dentro dos nossos corações, mas não se esqueça, eu me vou, pra longe e pra não voltar.
Não me odeie, não é necessária toda essa melodramática que envolvem os romances, só lembra de Mário Quintana: “Então o amor, a amizade são isso. Não prendem, não escravizam, não apertam, não sufocam. Porque quando vira nó, já deixou de ser um laço."

Mas, diante de tudo o que eu disse, diante desse inverno em mim, que fez um buraco vazio no meu peito que nem pulsa, nem dói e pouco me traz arrependimento... Você sempre será a primavera em mim.

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